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A Arte não Precisa Ser Bela

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 21 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

As vezes eu me pergunto porque é tão agradável ler autores como Céline, Philip Roth ou Bukowski, com todo aquele palavreado chulo, personagens deploráveis e feitos desprezíveis. Como toda criança, eu comecei lendo histórias de aventura, mistério, e sempre gostei de enredos envolventes com resolução satisfatória, o que teria então de tão interessante, as sarjetas onde bêbados e vagabundos perambulam aplicando golpes, bebendo e dormindo no próprio vômito? Ou os personagens depravados perturbados pelos seus ensejos sexuais? Muitas vezes lemos — ou assistimos à um filme — com o mero propósito de fugir da realidade, mas essa busca por conforto por si só é vazia, no fundo ansiamos por obras que captam a natureza humana, aquém a qualquer senso de moralidade.


A ideia de escrever esse texto surgiu quando uma amiga abandonou o filme Red Rocket, do Sean Baker, porque certas situações não lhe agradaram. Apesar de não ser um filme pesado, o dia a dia de um ator pornô decadente tentando se reerguer na vida fazendo aquilo que faz de melhor: trepando, se drogando e passando os outros para trás, foge daquilo que consideraríamos moralmente aceitável. De fato, se não esperamos esse tipo de atitude por parte de ninguém, porque consumimos esse tipo de conteúdo? Mal acostumados com as fábulas, normalmente esperamos um "moral da história", aquela reviravolta que daria sentido à obra, mas quem só vê a arte dessa forma, não compreende e até fica chocado quando as coisas não seguem essa linha. Por isso muitos torcem o nariz para O Cortiço, livro essencial da literatura brasileira, repleto de passagens revoltantes, como o momento em que um determinado personagem trai e entrega para os captores, uma pessoa com quem viveu a maior parte de sua vida, apenas para escalar na sociedade.


Isso vai diretamente ao ponto do porquê consumimos arte! Muito se discute o papel da arte como uma ferramenta de conscientização, mas antes de qualquer coisa a arte é algo inerente ao ser humano, alheia a qualquer utilidade. É tarefa difícil definir o que é arte, seu conceito e até hoje debatido pelos próprios especialistas da área, mas se toda a nossa realidade é um construto da linguagem, a arte é simplesmente uma tentativa de se comunicar. Uma das poucas certezas existentes dentro da filosofia, é a de que só podemos ter noção de nossa própria consciência e jamais teremos acesso à consciência de outra pessoa. O "penso logo existo" de Descartes sistematizou essa ideia, e então a tragédia humana é essa grande solidão de si consigo mesmo, onde a arte é um meio de buscar essas outras consciências. Embora possa ser usada como propaganda — e de fato essa é uma de suas principais aplicações — a arte não demanda de uma mensagem, ela existe por si só, nem sempre aquele filme que você viu quer te dizer algo, as vezes ele é só um fragmento da consciência do artista e nada mais.


Obras muito idealizadas soam estranhas, se o bem e o mau estão muito bem definidos a coisa soa artificial, nos faltam as nuances. Enaltecer "valores" é assumir a existência de valores universais quando na verdade, a humanidade é composta por uma miríade de valores diferentes. Procuramos numa obra, não a máscara com a qual o artista se relaciona com a sociedade, mas sim o seu interior, um vislumbre de sua consciência e nesse processo, vemos reflexos de nós mesmos, uma lembrança de que não estamos sozinhos.


Uma das grandes invenções da literatura foram os chamados romances de formação. Se antes os livros eram destinados apenas aos heróis e as grandes conquistas, nos últimos séculos suas páginas começaram a ser tomadas, cada vez mais, pelo dia a dia das pessoas comuns. Esse contraste entre o épico e o cotidiano causou estranheza no início, mas logo se popularizou moldando toda a cultura. Esse estilo aparentemente "banal" ganhou inúmeras feições e logo começou à olhar para dentro do homem comum, se os poemas e sagas louvavam entidades míticas e enalteciam valores universais, os romances de formação eram mais intimistas e olhavam para dentro do indivíduo, retratando seu desenvolvimento psicológico e moral.


Hans Castorp de A Montanha Mágica não é nenhum Aquiles, mas tem muito mais a nos dizer, enquanto jovem cidadão médio, isolado num sanatório em meio ao debate de ideias radicalmente opostas, tudo isso durante a falsa onda de otimismo que sucedeu a Primeira Guerra Mundial. Um traço comum nos romances de formação é essa ideia de amadurecimento, com um quê muitas vezes otimista, mas o que acontece com o personagem uma vez que já está completamente formado? E aí que entram aquelas obras que deformam o personagem.


Na obra auto biográfica Viagem ao Fim da Noite — um dos melhores e mais polêmicos livros do século XX — vemos o personagem Ferdinand Bardamu numa jornada por África, América e Europa, sobrevivendo à guerras — sempre fugindo e desertando — conflitos e à pobreza. Bardamu não é um típico herói em formação ou mesmo uma vítima do destino, mas sim um misantropo consciente, egoísta e sem freios morais. Suas experiências não o constroem mas corrompem, num livro que pode ser um verdadeiro ode ao egoísmo. Numa distorção dos romances noir, que povoaram as noites com todo sortilégio de figuras perigosas e femmes fatales, Bukowski decidiu olhar para as sarjetas e contar a história dos personagens marginalizados, os bêbados e drogados, aos quais nenhuma conquista é destinada. Aqueles que antes eram apenas um plano de fundo borrado, agora pensam, agem e têm a sua própria história para contar. Sean Baker nos seus filmes decide mostrar a jornada daqueles que perderam o trem para o sonho americano. Prostitutas, imigrantes, atores pornô, travestis, pobres em geral, lutando para conquistar seu espaço num país cujo sistema não os contempla. Philip Roth versa sobre aqueles que surfaram no American Dream para só então perceber que isso não significava nada, focando nesses apocalipses pessoais e na decadência do universo masculino. E porque não falar daquele que talvez é o criador desse tipo de romance, Fiódor Dostoiévski, anti-ocidentalista primevo, que já tratava em seus livros dos problemas dos excessos de narrativas e foi dessa forma o precursor do niilismo, criando personagens que sucumbiam ao desespero afogados dentro de si mesmos!


Pode parecer triste e sombrio mas é esse tipo de humanidade que buscamos na arte, procuramos alívio e explicações, mas só o que encontramos é a verossimilhança. Buscamos o que é crível dentro de nosso escopo de interesse. Nesse inexorável isolamento da consciência, não buscamos apenas nos identificar, é mais do que isso, buscamos outras existências que soem reais. Essa identificação é o mais próximo que chegamos da existência do outro. Esse tipo de conexão pode muito bem ser alcançado com obras boas ou otimistas, mas a natureza humana é muito mais ampla e complexa do que isso, então fica faltando algo — e sempre faltará!


"I think people are perverts. I've maintained that. That's the foundation of my career" — David Fynch

Se a arte fosse composta apenas por bom mocismos, pelo agradável ou pelo utilitário — e diversos regimes já almejaram e almejam esse estado distópico — apenas uma parcela da natureza humana seria contemplada e isso não basta, falta sordidez. Todo mundo é podre! Nossa consciência é multifacetada demais para sequer termos algum controle sobre ela, pensamentos sublimes e horríveis brigam por espaço dentro de nós e o grande esforço humano está em conseguir viver em sociedade sem deixar isso transparecer e se equilibrar nesse limiar de não se perder atrás da máscara. A consciência se esconde sob ela e a utiliza para socializar, sem isso o que reinaria era o completo caos mas se olhamos para um lugar e vemos apenas as máscaras tudo soa falso, artificial. É isso que essas obras nos oferece, vislumbrar o além da máscara de uma distância segura!

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