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A Guerra do Fim do Mundo

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 21 de fev.
  • 4 min de leitura

Foi por retratar grandes acontecimentos históricos que Llosa se firmou como um dos principais autores de sua geração. Sua obra de forte viés jornalístico, percorre momentos decisivos da história, pormenorizando as estruturas políticas, que condenam aqueles presos à elas. Seus livros, frutos de extensa pesquisa, vão desde ensaios literários até os romances que retratam essas turbulências do século XX, como as ditaduras latino americanas (no Peru e República Dominicana) e outros conflitos globais.


Foi assim, que o autor se deparou com Os Sertões de Euclides Cunha e virou seus olhos para o Brasil. Fascinado pela história de Antônio Conselheiro e toda aquela aura mítica que o envolvia, fez ele próprio uma vasta pesquisa e viagem pelo sertão baiano, para entender a atmosfera da lendária Guerra de Canudos, que resultou no romance A Guerra do Fim do Mundo.


A Guerra de Canudos é algo meio distante de nós, mal temos contato com ela nas aulas de história, onde outras batalhas são priorizadas, mas foi talvez uma das guerras mais singulares do país. No século XIX, o arraial de Canudos, liderado pelo líder religioso Antônio Conselheiro, reuniu milhares de pessoas, fugidos da seca e das mazelas do sertão, na esperança de um milagre. O peregrino, que viajou pelo sertão pregando e se fixou em Canudos, gerindo o arraial com base em valores comunitários, logo tomou ares de santo e profeta. A peregrinação santa até a cidade reuniu retirantes, cangaceiros, no maior movimento messiânico que o Brasil já viu, causando temor aos senhores de terra da Bahia e comoção do governo Brasileiro. Logo se espalharam os rumores de um suposto "movimento revolucionário monarquista" suportado por potências estrangeiras, boatos inflados pelos senhores locais. Surpreendentemente aqueles miseráveis venceram pelos menos três batalhas contra os exércitos enviados pela república, até serem completamente massacrados e o arraial destruído até os alicerces.


A Guerra do Fim do Mundo não peca em detalhes, é extenso e tem uma narrativa quebrada, que vem e vai na linha do tempo, replicando desde os primeiros momentos e o contexto da guerra, culminando no inferno que se viveu em Canudos, tudo isso sob a óptica de diferentes personagens — supreendentemente, em momento algum é o Conselheiro o protagonista da narrativa, tamanha estranheza parece turvar sua personalidade, tornando-o inacessível para o narrador.


No mais, A Guerra do Fim do Mundo é um bom romance histórico que foge daquele gênero clichê dos thrillers, optando pelo teor histórico e jornalístico. Agora, deixando de lado as qualidades do livro, o que chama a atenção é um quê de estrangeirismo não intencional na obra. Todos aqueles personagens estranhos, exóticos e fanáticos, que de fato perambularam por lá, quando narrados por Llosa, ganham um ar extravagante. Existe um distanciamento que separa A Guerra do Fim do Mundo de outras obras regionalistas — mesmo que o estilo seja muito similar — falta um tempero brasileiro. Compare por exemplo com Seara Vermelha de Jorge Amado, que também faz a referência à um fictício Santo — evidentemente baseado em Antônio Conselheiro — um livro que emana muito mais "brasilidade", onde até mesmo o ambiente atua como narrador. É difícil apontar o que, na escrita de Llosa, dá essa sensação, afinal isso pode ser inteiramente subjetivo, mas fica a sensação de um distanciamento do autor para com os personagens.


Todos os personagens de A Guerra no Fim do Mundo são numa certa medida caricatos demais, leitura típica de alguém de longe, o que não ocorre em outras obras regionalistas (Jorge Amado, Graciliano, Érico Veríssimo, João Guimarães Rosa, etc.). Ironicamente, Llosa poderia ser comparado à um dos personagens do romance: Galileu Gall, o frenologista. Um anarquista idealista inglês, que tenta entender Canudos, sem nunca compreender nada do Brasil. É irônico, porque tal personagem é uma caricatura de algo que Llosa criticava bastante: esse idealismo cego tão característico da esquerda, que muitas vezes esquece da realidade para se apegar à ideais fantasiosos.


Se nos últimos anos Llosa se mostrou um conservador convicto, no passado o autor flertou com o marxismo e as correntes libertárias latino-americanas, como a revolução cubana. Nesse livro de 1981 já podemos ver um pouco de seu posicionamento contrário as utopias revolucionárias da esquerda. Fica evidente as diferenças entre ele e seu amigo Gabo, enquanto um se usa das superstições para pintar o fabuloso, o outro pinta um retrato cru das superstições. O realismo fantástico de Gabo é uma narrativa histórica diferente do realismo estrutural de Llosa, mais institucional e político. Um foca no mito o outro no mecanismo do sistema.


O narrador invisível é uma criatura cética e cabe aqui falar de certos personagens. Todos aqueles que povoam o sertão de Llosa são criaturas que contestam a própria existência: os maridos que precisam matar a própria companheira para defender sua honra ou morrer no lugar delas; as mulheres presas à uma dinâmica patriarcal que não veem sentido em ser livres; os proprietários de terras que sucumbem à própria loucura, quando suas propriedades estão ameaçadas; os soldados que lutam por falsas ideologias. Veja que todas essas características existem até hoje, mas aqui fica evidente o tom crítico de Llosa, avesso ao idealismo e dogmatismo e isso fica evidente na narrativa. Em qualquer outra obra regionalista, são os senhores de terra os vilões, mas em A Guerra no Fim do Mundo o latifundiário Barão de Canabrava, é o mais sensato dos personagens, um intelectual cujos diálogos rendem as melhores reflexões, e funciona como o verdadeiro termômetro moral da trama. Tais tons de cinza conferem humanidade para a narrativa, mas quando o frenologista é construído preto no branco, como um fanático sem noção da realidade, fica claro o posicionamento do autor. Minha maior decepção fica para aquele que deveria ser o melhor personagem da trama, o jornalista míope, que tem todo um posicionamento sobre a situação, mas depois percebe que a realidade é subjetiva e muda não apenas de acordo com a experiência de cada um, mas também conforme as narrativas criadas— sejam elas verdadeiras ou não. Pena que tal personagem também fica contido numa alegoria arquetípica.


A Guerra no Fim do Mundo é dessa forma, mesmo com toda a pesquisa, um quadro pintado de longe por um estrangeiro. Sobre a guerra naquele fim de mundo, como bem percebeu o jornalista míope, foi uma guerra sem sentido, um conflito de narrativas, originadas de boatos, que culminou no massacre de soldados e de inocentes, como idosos, mulheres e crianças. Não foi apenas um destino trágico, mas também uma tragédia política.

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