A Garra do Conciliador
- Italo Aleixo

- 10 de mai.
- 3 min de leitura

O verdugo Severian segue firme em sua jornada, ao que sabemos até o momento, para se tornar o Autarca (embora ele ainda não saiba disso). Mas quem ou o que é o Autarca?
Essa é a maior característica de O Livro do Novo Sol de Gene Wolfe, não dizer muita coisa sobre seu universo, deixando a cargo do leitor, a tarefa de montá-lo aos poucos. O trabalho começa com o próprio Severian, um torturador, treinado desde criança nos mistérios da sua guilda, ávido por conhecimento mas sem nenhuma compreensão do mundo que o cerca. Desde o primeiro livro, A Sombra do Torturador, fica claro que a saga é um livro de memórias, escrito por um Severian, provavelmente, velho e que alcançou o cargo de Autarca. Mas no momento em que os acontecimentos vão sendo narrados, Severian não sabe nada sobre o mundo que o — a própria história do mundo é um mistério que a civilização perdeu. Por isso, pescar informações, unir os pontos e entender as narrativas que compõe Urth — a Terra num futuro muito longínquo — são executadas por Severian e pelo leitor concomitantemente.
Intencionalmente ou não, esse efeito sugere uma forma de metalinguagem, onde o próprio leitor é levado a "ajudar" Severian a interpretar o compilado de suas memórias. Esse tipo de jogo metalinguístico foi uma das grandes características de Jorge Luis Borges. O autor argentino — talvez o mais singular escritor de literatura fantástica — é autor de diversos contos onde brinca com a estrutura da realidade, frequentemente transformando livros, autores e leitores em parte da própria narrativa. Borges era mestre em se apoderar de conceitos filosóficos/matemáticos/científicos, e entremeá-los com o enredo. Labirintos infinitos, o passado interferindo no presente, mundos forjados a partir dos sonhos, entre outros, são tropos comuns nos contos de Borges.
Assim como Borges, Gene Wolfe também é criterioso em tecer seu mundo com conceitos filosóficos. Isso está presente desde o primeiro volume — como os instigantes espelhos do Padre Inire por exemplo — e não é diferente aqui. A cena por exemplo onde Severian vivencia um ritual canibal, tem implicações não apenas sociais, mas também psicológicas, abrindo toda uma possibilidade de debates sobre a natureza da consciência no mundo de Wolfe. Tal ponderações recaem também sobre o estado atual da espécie humana: é evidente que o Homo sapiens já deve à muito ter diferido de sua forma original e ramificado na árvore da vida: os exultantes superam em muito a estatura de Severian — considerado alto — sugerindo toda uma classe de melhoramentos genéticos ou seleção eugênica; existem os homens verdes, que possuem algas na corrente sanguínea e podem extrair energia diretamente de um Sol cada vez menos vibrante; temos também os "homens-macaco", adaptados às profundezas, que perderam os traços humanos e vivem sob total escuridão. Essas e outras sinapomorfias do Homo sapiens, sugerem que a humanidade já não parece em nada com o que conhecemos — apesar das pouquíssimas ilustrações que existem na internet sugerirem o contrário. Isso é, de certa forma, confirmado quando Severian pergunta a Jonas por que os homens-macaco mudaram tanto, enquanto aqueles na superfície não, e recebe em troca apenas um olhar de julgamento.
A leitura de A Garra do Conciliador é um deleite, porque ao mesmo tempo que a narrativa segue frenética e sem muita enrolação, todas essas lacunas obrigam o leitor a ponderar, é como se existissem duas leituras simultâneas do mesmo livro. Dois grandes mistérios que são desenvolvidos nesse segundo volume, mas sem qualquer tipo de explicação, são a tecnologia e mitologias de Urth. Num mundo quase medieval, a tecnologia parece ser muito rudimentar, embora naves e estações espaciais, componham as ruínas da humanidade, sugerindo algum tipo de Jihad anti tecnológica em algum momento do passado — algo semelhante ao que ocorreu em Duna, de Frank Herbert e Um Cântico para Leibowitz, de Walter Miller Jr. E seriam baia e suas esposas — sereias que Severian frequentemente encontra pelo mundo, sempre envoltas em profecias — apenas delírio da mente de Severian, ou cacogênios (aliens) em algum momento trazidos para Urth e assimilados pela sua mitologia?
Mesmo para aquele tipo de leitor que não quer se aprofundar tanto na obra e quer apenas curtir uma boa história de fantasia, a obra também não decepciona. O Livro do Novo Sol tem todas as características típicas do gênero espada & feitiçaria mas não é refém dos clichês. Lá estão as batalhas frenéticas, mesmo com a narrativa mais contemplativa, e também as bestas selvagens e misteriosas, mesmo que muitas vezes o contato com elas seja mais próximos ao de um naturalista. A Garra do Conciliador se encontra em um limiar, entre a ação/aventura e a viagem/exploração e bebe bastante das referências de Borges para criar uma obra de fantasia única.




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