A Sombra do Torturador
- Italo Aleixo

- 17 de abr.
- 4 min de leitura

De acordo com uma ideia de J. R. R. Tolkien, o nascimento do gênero fantástico se dá com o surgimento da linguagem. A capacidade de converter objetos em símbolos e transformar essa informação em palavras, torna o escritor o portador do dom da criação: um simples jogo de palavras, como por exemplo um “Sol verde”, já permite a gênese de mundos mágicos. Em A Sombra do Torturador no entanto, verde é a Lua, enquanto o Sol é uma gigante vermelha dando seus "últimos suspiros".
Leitor assíduo de histórias de fantasia desde minha infância, há muito, já sinto aquela sensação de saturação com o gênero. O que eu realmente gosto no fantástico, não são mais as aventuras, mas sim os mecanismos pelos quais ele é criado. Assim como a ficção científica subverte a realidade usando as próprias leis da física, a fantasia subverte a linguagem e noções metafísicas. A Lua verde de O Livro do Novo Sol — o nome da saga que se inicia aqui — não é só uma cor ou um capricho estético, ela sugere por si só um futuro longínquo e o uso de tecnologia avançada (para terra-formação), além de todas as discussões decorrentes disso.
Mencionar Tolkien como uma das referências de A Sombra do Torturador é desnecessário, já que ele é a principal influência de todo o sub-gênero de espada & feitiçaria. Também é redundante falar de Lovecraft, com suas criaturas vastas, antigas, além de qualquer compreensão, permeando o ambiente e até a própria realidade. Talvez Duna de Frank Herbert e os contos de Ursula K. Le Guin, com divagações filosóficas/religiosas/sociológicas sejam referências mais evidentes. Mas é do escritor argentino Jorge Luis Borges, de quem Gene Wolfe bebe de todas as fontes.
Borges é um dos mais singulares escritores de literatura fantástica que já existiu. O escritor argentino usa teorias e conceitos filosóficos, linguísticos e psicológicos, para distorcer e remodelar a realidade. É fascinante se perder nos labirintos infinitos de Borges; mergulhar em sonhos que transbordam para o mundo real; ler ensaios de livros fictícios que modificam a história; ou conhecer tratados filosóficos que alteram a realidade do leitor; etc. Já que toda obra de Borges é baseada em contos, eu ficava me perguntando como seriam suas histórias numa narrativa mais longa — eu só queria uma desculpa para passar mais tempo na Biblioteca de Babel — ou se eles fossem interconectados? O Livro do Novo Sol é o mais perto que chegamos disso.
Apesar de todas essas influências O Livro do Novo Sol ainda é uma fantasia atípica. A saga é um misto de ficção científica e fantasia, ambientada num futuro longe demais para sequer imaginar. Um futuro onde a humanidade já desbravou o universo, mas a glória de um império intergalático já é coisa de um passado longínquo e perdido. resta aos habitantes de Urth viverem sob o julgo de uma estrela (e governo!) decadentes. Isso é o pouco que sabemos e a própria humanidade não sabe muito mais do que isso, regredindo a uma estética medieval.
O narrador da história é Severian, membro da guilda de Torturadores, um herói que destoa do esperado: ele é um verdugo, carrasco, mas não é aquele típico anti-herói niilista; ele tem sede de conhecimento, mas não sabe de muita coisa, nem mesmo o objetivo de sua jornada; ele tem uma memória aparentemente perfeita — remetendo à um dos personagens de Borges cuja maldição é nunca esquecer de nada — mas alega confusão sobre a veracidade ou a ordem das suas lembranças. É dessa forma, tão perdido quanto Severian, que o leitor se lança na história.
A grande característica da obra é o ritmo cadenciado e uma narrativa quase minimalista — só quase. Aqueles que jogaram jogos como a franquia Dark Souls, da From Software, se depararam com uma narrativa que não diz quase nada, onde a história precisa ser resgatada em fragmentos abandonados no cenário ou na descrição de itens isolados. Algo semelhante acontece em A Sombra do Torturador, onde pouca coisa é dita e cabe ao leitor ir juntando os pontos e criar suas próprias teorias. Dentre essas, uma que me chamou particularmente a atenção, foram os espelhos do Padre Inire, um mecanismo apresentado em poucas páginas como uma curiosidade, e que "explica" todo o funcionamento de um recinto que os personagens viriam visitar no futuro. Detalhes soltos sugerem ainda, que foi tal tecnologia que permitiu a expansão do homem pelo universo, e possui implicações filosóficas contundentes que colocam a própria realidade de Urth em cheque — eu até me permiti discorrer especificamente sobre essa parafernalha num outro texto.
Para todos os efeitos, A Sombra do Torturador é uma típica história de fantasia, com masmorras, monstros e sua própria "espada mágica". Mas esse aspecto é diluído numa estética bastante contemplativa e nas nuances borginianas. Ao terminar o livro o leitor ainda não estará entendendo nada, assim como nosso protagonista. Severian antes de ser um herói, é um estudioso e colecionador de histórias que se lança nessa tarefa de resgate da história perdida da humanidade, ao lado do leitor, mesmo que ele mesmo não saiba disso.




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