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Os Espelhos do Padre Inire

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 8 de abr.
  • 9 min de leitura
Ilustração de Eric He
Ilustração de Eric He

Uma coisa que me atrai em histórias fantásticas é como pequenos detalhes (paisagens, artefatos, fenômenos) podem se desdobrar para fora das páginas do livro. As vezes aquela coisa estranha, ínfima, usada como adorno para o enredo, largada ali de algum modo pelo autor, pode gerar uma grande discussão, as vezes mais interessante que a trama em si. A Sombra do Torturador é uma típica obra de fantasia, mas mantém um tom mais contemplativo e minimalista, e por conta disso, está recheado desses pequenos detalhes.


Dentre os vários pequenos contos que povoam o livro, um artefato em especial chamou minha atenção: os espelhos do Padre Inire. Tal artefato nomeia um capítulo do livro, mas a pouca explicação sobre o que é ou como funciona, se resume à um diálogo que não ocupa duas páginas. O artefato teria a capacidade de transportar objetos e interferir na própria realidade — de maneira leviana, ele poderia ser considerado um mero portal dimensional — mas a maneira como é colocado dentro da narrativa, sugere algo muito mais amplo. Como eu tenho um fascínio pela epistemologia e pela natureza da realidade, gosto de me lançar nessas tarefas de tentar explicar entender esses prodígios fantásticos.


Em um certo momento do livro Severian se lembra de uma história que leu. Nessa história, uma garota é "convidada" pelo Padre Inire à visitar a câmara de presença. Tal câmara, é uma grande sala revestida por cortinas vermelhas em cujo centro existe um recinto ortogonal encimado por uma luz extremamente brilhante. Dentro do recinto, todas as paredes são espelhos que captam e refletem entre si, a luz branca posicionada acima. Bem no centro do recinto, ficava aprisionado o "reflexo" de um peixe, como que nadando em um aquário invisível.


"— Os antigos que conheciam esse processo pelo menos tão bem quanto nós e talvez melhor, consideram o Peixe o menos importante e o mais comum dos habitantes dos espelhos. Com sua falsa crença de que as criaturas que eles invocaram estiveram sempre presentes nas profundezas do vidro, não precisamos nos preocupar. Com o tempo, eles se voltaram para uma questão mais séria: Por quais meios a viagem pode ser feita quando o ponto de partida fica a uma distância astronômica do local de chegada?— Posso passar minha mão por ele?— Nesta etapa, pode, criança. Mais tarde eu não aconselharia" - Os Espelhos do Padre Inire, A Sombra do Torturador, Gene Wolfe.

Com a continuidade do diálogo fica evidente que é essa a tecnologia por trás das viagens interestelares, empregadas outrora pela humanidade. A ideia é que os espelhos sejam dispostos de tal forma que, quando iluminados por uma fonte de luz coerente (tipo um laser), a imagem se replica indefinidamente, mas não se anula, pelo contrário, cada reflexão é deslocada ligeiramente no tempo.


"... Se os espelhos forem bem feitos e as distâncias entre eles estiverem corretas, as imagens não coincidem. Em vez disso, uma vem atrás da outra." - Os Espelhos do Padre Inire, A Sombra do Torturador, Gene Wolfe.

A princípio isso poderia ser um mecanismo de transporte altamente tecnológico perdido na mitologia de Urth, que substituiria as famigeradas "dobras espaciais" e viagens à velocidades superiores à da luz. Mas o que o padre diz a seguir traz grandes consequências para própria filosofia de Urth:


"— É apenas um reflexo?— Em algum momento, será um ser real, se não apagarmos a lâmpada nem mudarmos o espelho de lugar. Pois a existência de uma imagem refletida sem que haja um objeto para originá-la viola as leis do universo e, portanto, um objeto deverá passar a existir." - Os Espelhos do Padre Inire, A Sombra do Torturador, Gene Wolfe.

A Invenção de Morel


É provável que os espelhos, sejam também, o artifício por trás das maravilhas dos Jardins Botânicos de Nessus. Tais jardins são formados por um grande domo de vidro, separados em sessões que representam diferentes biomas. Essas sessões são separadas por paredes de vidro, espelhadas internamente. Dentro de cada jardim as dimensões internas são muito maiores do que o espaço externo sugere, e é possível visitar faunas e floras extintas, incluindo os habitantes que viveram naquelas paragens. E o mais interessante: não se tratam de projeções, mas sim de coisas reais!


Quando me deparei com esses jardins, a primeira coisa que me veio à mente foi a A Invenção de Morel. Nesse maravilhoso livro de Adolfo Bioy Casares, um fugitivo se refugia numa ilha isolada, onde ocasionalmente chegam alguns turistas. Não demora para que ele se apaixone por uma das turistas, mas fica desolado quando descobre que ela ignora sua existência completamente. Com o tempo ele percebe que aqueles turistas vem e vão, revivendo e executando sempre as mesmas ações, sem nunca se darem conta de sua existência. SPOILER!!! O desfecho da história é que aqueles turistas na verdade são gravações, e a tal invenção é uma máquina capaz de gravar a realidade e reproduzi-la fielmente. O fugitivo então está preso numa ilha, onde a realidade é uma reprodução em looping!


Esse parece ser exatamente o tipo de coisa que acontece dentro dos Jardins Botânicos. Em uma visita ao Jardim da Selva, Severian depara-se com uma cabana de madeira e presencia um diálogo, que ao julgar pelas descrições, se desenrola entre um casal de exploradores da primeira metade do século XX e um habitante nativo — a cena tem aquele ar aventuresco de histórias típicas de Edgar Rice Burroughs ou H. Rider Haggard — com direito à um avião hidromotor sobrevoando a casa. Severian parece estar dentro de uma projeção simulada da realidade, já que toda cena se dá perante seus olhos, sem que ele participe de fato da ação. Mas será apenas isso?


É evidente que aqueles personagens de tempos passados, pressentem a presença de Severian, mas o encaram como algum espírito concernente à suas crenças. O próprio Severian fica desnorteado em outros recintos, ficando horas dentro deles, achando que se passaram poucos minutos. Nesse caso, acredito que uma máquina de Morel pode ser descartada, pois parece haver ali algo mais do que uma "simples" gravação. Se os espelhos são de fato um artefato de transporte, aquela realidade ali projetada pode estar vindo de outro lugar — ou outro tempo — assim como o próprio espectador pode estar sendo transportado para a outra realidade!


A explicação de porque alguns visitantes dos jardins se perdem e acabam vagando por ali, como que "amaldiçoados", talvez seja porque eles próprios vieram de uma outra realidade e agora estão presos. Uma via de mão dupla! Isso parece ser confirmado pelo próprio Severian:


"— Não faz muito tempo desde que eu quis contar a você sobre a amiga de uma amiga minha, que foi capturada nos espelhos do padre Inire. Ela se viu em outro mundo e mesmo depois de voltar para Thecla, ela não tinha certeza se havia encontrado o caminho de volta ao seu verdadeiro ponto de origem. Eu me pergunto se ainda não estamos no mundo que aquelas pessoas deixaram, em vez de elas estarem no nosso." - A Cabana na Selva, A Sombra do Torturador, Gene Wolfe.

Mais adiante, num jardim que é um grande pântano onde costumava-se sepultar os mortos — eles eram afundados na água com pesos no corpo e tinham sua posição exata anotada num mapa — eles encontram um velho que procura desesperadamente o corpo da esposa. Todos os traços da existência dela existem apenas na sua memória, então ele quer olhar para ela uma vez mais — supostamente a água do pântano preserva o corpo dos defuntos — para ter certeza que tudo não passou de um sonho. Não seria também, esse velho, alguém vindo de outro lugar e procurando um corpo que não se encontra ali?


Os espelhos de Inire são de fato uma invenção notável e uma estratégia narrativa bastante charmosa para explicar as viagens interestelares e criar por si só todo um sortilégio de especulações. Mas um aspecto de seu funcionamento, confirmado pela afirmação de Inire sobre o peixe, teria impactos muito grandes na própria realidade de Urth: o peixe deve se tornar real, pois diante de um reflexo, as leis do universo requerem a existência do objeto que está sendo refletido.


A presença de um reflexo (um efeito) sem um objeto original (o peixe) viola a noção de causalidade. O universo então introduz um objeto real para manter a consistência do sistema, e o peixe passa a existir porque sua existência é exigida pelo fenômeno. Dessa forma, a relação tradicional entre causa e efeito é substituída por um princípio de consistência universal. De acordo com Borges, o peixe seria um Hrönir!


Hrönir


Na obra prima de Jorge Luis Borges, Ficções, um dos contos mais instigantes é Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. No conto — que também começa com uma reflexão (rs) sobre os espelhos — existe um lugar chamado Tlön onde a realidade objetiva não existe e o mundo não é composto por objetos independentes no espaço, mas sim dependentes da experiência. Nesse mundo os Hrönir são objetos criados pela experiência:


"Séculos e séculos de idealismo não deixaram de influir na realidade. Não é infrequente nas regiõesmais antigas de Tlön a duplicação de objetos perdidos. Duas pessoas buscam um lápis; a primeira oencontra e não diz nada; a segunda encontra um segundo lápis não menos real, contudo maisajustado à sua expectativa. Esses objetos secundários se chamam hrönir" — Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, Ficções, Jorge Luis Borges.

Esses objetos seriam criados pela mera sugestão, uma necessidade da realidade de se adequar ao esperado. No mesmo conto, em um experimento, o diretor de uma prisão comunica aos presos que numa área de escavação existiam certos sepulcros (falsos), e seriam libertados aqueles que trouxessem um achado importante. Logo diversos objetos foram encontrados ajudando a reescrever o passado de Tlön:


"A metódica elaboração de hrönir prestou serviços prodigiosos aos arqueólogos. Permitiu examinar e até modificar o passado, que agora não é menos plástico e menos dócil que o futuro". — Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, Ficções, Jorge Luis Borges.

Ou seja, em Tlön as coisas não existem independentemente no espaço nem no tempo: existe apenas um presente moldado, um futuro que não é determinado e o passado que pode se transformar com a força do pensamento. O conto traz seu próprio debate teológico, presente em um paradoxo proposto por um filósofo materialista: se alguém perdesse umas moedas, e essas fossem encontradas por outras pessoas, isso provaria a existência das moedas independente de um observador. Ao que os filósofos idealistas respondem: se outras pessoas encontraram essas moedas, elas são moedas diferentes que existem na mente de cada observador.


O grande charme de Borges, é que por mais fantasioso que o conto seja, ele se baseia em doutrinas filosóficas reais. Nesse caso especificamente, precisamos recorrer ao idealismo subjetivo de George Berkeley, que nega a existência da matéria e acredita que a realidade é apenas o que pode ser percebido pela mente. O filósofo defende um tipo radical de empirismo onde a realidade objetiva sequer exista, onde "ser é ser percebido (esse est percipi)". Nesse idealismo radical algo só existe quando é observado por alguém e dessa forma, a realidade é moldada pela experiência.


Não estamos falando de um filósofo obscuro ou essencialmente metafísico, Berkeley debateu contra a objetividade de Jhon Locke e contra os conceitos de espaço, tempo e as forças de Isaac Newton. Boa parte da discussão do filósofo se baseia no fato dos órgãos dos sentidos nos passarem informações contraditórias. De acordo com ele, os objetos que enxergamos são formados por propriedades, como luz e cores, e não por objetos materiais, por isso conceitos como a matéria, ou as forças, não seriam entidades reais. Berkeley dialogou com a ciência moderna, questionando suas bases metafísicas. Mesmo que aparentemente superado, esse tipo de discussão ainda é o âmago do que entendemos por ciência: separar o que podemos conhecer e verificar, daquilo que está além do nosso conhecimento.


Urth seria mesmo a Terra contemplando os últimos dias do Sol?


Por isso os espelhos do Padre Inire vão além de um artifício charmoso para a história ou artefato fantástico qualquer. Eles implicam na própria realidade do mundo, já que naquele universo a cópia não vem depois do original, mas participa do próprio processo de criação da realidade. Visto dessa forma, o transporte interestelar não envolve ir do ponto A para um ponto B, mas sim, copiar num ponto B um corpo presente em A. A expansão da civilização não se deu pela humanidade se espalhando para novos planetas, mas sim espalhando seus reflexos materializados!!! Outra consequência impactante, é que a trama sugere que os eventos passados em Urth estejam acontecendo nos momentos derradeiros da vida do Sol — agora uma gigante vermelha — mas essa possibilidade da existência de Hrönir na mitologia de Wolfe, coloca em cheque a natureza linear do próprio tempo.


Isso nem é tão fantasioso, se pararmos para pensar que, a própria relatividade geral vê o passado, presente e futuro como um bloco único, no qual os eventos já "existem". A confirmação de um Hrönir, o peixe, nesse universo, implica que o presente não é uma causa do passado, mas sim uma realidade em constante mudança. Da mesma forma, os personagens da cabana na Selva percebendo à presença de Severian, seriam o passado sendo transformado pelo presente!


É bem provável que tal filosofia não tenha mais desdobramentos ou impactos na obra — ainda estou lendo os livros — e seja apenas mais uma das várias influências da Borgianas na literatura de Wolfe. O próprio Borges "aparece" no livro, como Ultan, o bibliotecário cego que conhece de cor todos os livros armazenados na penumbra de sua biblioteca. Mas é, no mínimo, interessante o impacto que os espelhos do padre Inire poderiam causar na história. Se o passado e o presentes são reconstruídos à todo tempo, talvez nunca tenha existido de fato um "crepúsculo" da humanidade, uma época onde o homem dominou e explorou o universo. Talvez todos os elementos que remetam à um passado espacial glorioso sejam meros Hrönir, criados por um "capricho" do universo. Assim Urth não seria um mundo decadente que persiste, um estágio final da civilização humana mas sim um universo em constante reconstrução.

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