New Western
- Italo Aleixo

- 8 de mai.
- 7 min de leitura

O faroeste é talvez o maior tropo do imaginário norte americano. O gênero, que já era difundido antes mesmo do cinema se popularizar, expandiu com o cinema mudo e atingiu seu auge durante a "era de ouro" entre os anos 40 e 70. O declínio viria a partir da década de 80, quando os filmes urbanos e futuristas começaram a dominar as bilheterias — como os filmes de máfia e as primeiras ficções científicas. O gênero perdeu prestígio mas nunca morreu, e embora hoje em dia seja relegado à produções marginais, durante as últimas décadas assistiu todo um subgênero brotar de si: o new western.
"So we beat on, boats against the current..." — The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald
O ideal do faroeste e do cowboy está muito arraigado no imaginário coletivo estadunidense. Durante o século XIX, os colonos norte americanos se lançaram rumo ao Velho Oeste em busca de novos territórios. A jornada rumo à esse oeste longínquo (far west) foi um evento expansionista de cunho político e religioso, orientado pela doutrina do Destino Manifesto. Isso resultou num choque cultural irreversível entre colonizadores e povos nativos, resultando em invasões de território, saques e "acordos comerciais". Os acordos, porém, logo eram quebrados, pois a ânsia capitalista do homem branco não estava em sintonia com a filosofia dos nativos, que foram varridos da região.
O genocídio foi atenuado nas narrativas do governo, a marcha para o Oeste foi propagandeada e foi abraçada pela cultura pop, entrando para sempre no imaginário da nação. O homem branco foi mitificado na figura do cowboy, xerife e outros agentes da lei/heróis, enquanto os pele vermelhas foram acondicionados no estereótipo de vilões e/ou selvagens. O faroeste conta histórias de aventura e desbravamento, com uma narrativa maniqueísta e personagens de moral simplista, onde a batalha do bem x o mal, é reencenada por cowboys e índios. A história seguiu em diante, os colonos se estabeleceram, os nativos foram exterminados e as batalhas acabaram. O American Dream havia se concretizado!
Baixada a poeira — literalmente falando! — o cenário encontrado, por aqueles que lá se estabeleceram, era bem mais turvo do as promessas faziam crer. Já não existiam territórios para conquistar, apenas uma área para defender, mas de quem? Os proprietários defendem suas terras de quem não as têm e o governo defende suas fronteiras de quem tenta entrar, e em meio à linhas tão abstratas, vagam todo um sortilégio de gente e personagens perdidos. As glórias do farwest arrefeceram e o espírito épico deu lugar as histórias de fronteiras. O sonho americano era só um sonho afinal!
"... borne back ceaselessly into the past.” — The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald
É nesse limiar que o new western acontece, um faroeste desiludido que abandonou o estereótipo heroico e percebeu sua condição humana. Existe toda uma seara de subgêneros oriundos do faroeste, mas o que eu chamo de new western aqui é especificamente aquele tipo de história que, subverte valores como o ideal expansionista, a idealização do cowboy e o próprio sonho americano. Django do Tarantino, por exemplo, figura em algumas listas do gênero, mas ele está mais para uma homenagem/sátira do autor ao faroeste do que para modelo de new western, afinal, aqueles personagens ali ainda tem morais e valores muito bem definidos, mantendo sua aura heroica. Há quem credite a origem do gênero aos anos 60, mas um filme muito citado como o início dessa onda no cinema é Onde os Fracos Não tem Vez, de 2007, um filme trágico que narra a história de um xerife cansado, impotente diante de tanta violência e um vilão imparável que é quase uma força da natureza.
Essa mudança de percepção não se deu de uma hora para a outra, a literatura já o faz desde Mark Twain, pelo menos. Um gênero literário que questionou muito essa desilusão com o progresso foi o gótico sulista. O gênero escancara a decadência do sul dos EUA, "abandonado" após a Guerra Civil, com personagens perturbados e histórias marcadas pela violência e pelo grotesco. Sujeitos perdidos, vagando de cidade em cidade, numa atmosfera de imensa pobreza e violência gratuita, talvez seja a maior influência para o new western, e não são poucas as referências cruzadas. O clássico Enquanto Agonizo, de William Faulkner, mostra a jornada dramática de uma família que precisa transportar o corpo de sua matriarca para ser enterrado em sua terra natal. O livro influenciou diretamente o filme Os Três Enterros de Melquíades Estrada, que mostra a travessia de um cowboy através da fronteira, carregando o corpo do amigo assassinado — e seu algoz — para cumprir sua promessa e enterrá-lo num lugar perdido no interior do México.
Uma cena de sexo de trinta segundos, em Os Três Enterros de Melquíades Estrada, encenada por um casal distraído com a TV, mostra essa desilusão com o sonho americano e a queda da figura do homem másculo. Uma ruptura com a glorificação idílica do mundo rural nos filmes de faroeste, quando os homens da lei e os cowboys, antes o supra sumo da masculinidade norte americana — ideal ainda hoje buscado — se tornam meros mortais. Essa humanização abre espaço para culturas completamente negligenciadas no faroeste clássico, como os homossexuais, tema abordado no excelente Ataque dos Cães, um filme bastante minimalista e contemplativo. Tal "desencanto" com figuras outrora heroicas, cria personagens mais humanizados, mas também atinge extremos, com personagens "quebrados" e deturpados. Bebendo direto da fonte do gótico sulista, O Diabo de Cada Dia, intercala a história de diversos personagens (em um elenco robusto), sempre envolvendo um desfecho trágico. Sua estrutura me lembra um outro livro, Um Homem Bom é Difícil de Encontrar e Outras Histórias, de Flannery O'Connor — gótico sulista e não um new western — mas enquanto o livro consegue evocar uma sociedade razoavelmente verossímil, o filme apela para uma classe mais patológica, com seriais killers, fanáticos religiosos, pervertidos entre outros.
No faroeste, o ideal de justiça era condensado na figura do xerife ou dos cowboys, mas no new western a justiça é turva, morosa e ineficaz. É com essa sensação de inconformidade que Mildred Hayes aluga três outdoors, para chamar atenção para o assassinato de sua filha em Três Anúncios para um Crime, ato que traz consequências para todos envolvidos. Cormac McCarthy — autor de Onde os Velhos não Tem Vez e talvez o maior escritor dentro do gênero — encara a decadência da justiça de outra maneira. McCarthy se recusa a destituir seus cowboys da aura heroica, mas os adapta muito bem para um mundo sem esperança, numa postura meio niilista. Esses estereótipos heroicos lançados a mercê do destino geram um resultado interessante: os cenários vastos, a natureza ricamente explorada e vilarejos isolados de toda existência ao redor, evocam a sensação de uma grande jornada ao Purgatório, onde os personagens pagam seus pecados, numa viagem sem fim. A jornada seria ao Inferno, se considerarmos duas obras primas do autor: A Estrada — vencedor do Pulitzer e também o mais destoante dentro dessa lista de new westerns — que narra a jornada de um pai e um filho tentando sobreviver num planeta destruído; e Meridiano de Sangue, a jornada de caçadores de escalpos no interior do México, que é quase uma fabula sobre a humanidade e a violência — na ausência de uma adaptação cinematográfica da obra, podemos nos deliciar com O Regresso, de Iñarritu, que narra a jornada do explorador Hugh Glass em busca de vingança, em meio a paisagens exóticas e selvagens, numa obra tão homérica quanto o clássico de McCarthy.
Mas a grande realização de McCarthy é aquilo que ele batizou de Trilogia da Fronteira — Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidades da Planície — que narra a jornada de diversos personagens que não alcançaram o sonho americano, vagando pela região entre fronteiras do Texas e México, fugindo e perseguindo nada em específico, num mundo completamente alheio às suas culturas. Talvez o grande mote do new western sejam justamente as fronteiras, seguindo uma ideia semelhante, o roteirista Taylor Sheridan criou, no cinema, sua própria trilogia da fronteira: Sicario que narra a guerra contra as drogas na fronteira dos EUA com o México; Hell or High Water que foca na fronteira social e conta a história de dois irmãos que decidem assaltar um banco após perderem a fazenda da família; e Wind River sobre um caçador desiludido que auxilia na investigação do assassinato de uma jovem em uma reserva indígena. É nesse entremeio de fronteiras físicas ou abstratas (a fronteira financeira; a barreira cultural), que o new western narra a jornada do homem comum a um "velho oeste" onde não resta mais nada a ser ser conquistado!
O faroeste se estabeleceu sobre o ideal da expansão e do sonho americano, enquanto o new western se baseia na instabilidade desses dois conceitos. Embora sejam gêneros tipicamente norte americanos — e mexicanos! — a noção de fronteira é universal e com algum esforço talvez seja possível encontrar a presença desse gênero em outro lugar. Na literatura mexicana, temos Chão em Chamas reunião de contos de Ruan Julfo, focados no conflito entre nativos, colonizadores, proprietários de terras e aqueles despojados delas. No Brasil podemos citar algumas obras regionalistas que se utilizam das características do faroeste — o próprio faroeste é numa boa parte, um gênero regionalista — mas mais especificamente o clássico Grande Sertão Veredas, distante demais para ser comparado com um tipo de faroeste, mas ainda assim a jornada de um "cowboy" sem muito rumo, perambulando entre fronteiras buscando seu destino. Na argentina temos o interessante Glaxo que conta uma história de quando "os trens deixam de passar", enaltecendo o conflito entre essas zonas rurais e a modernidade.
Se eu tivesse que resumir o gênero em uma palavra, seria estagnação! Esse é o sentimento geral que permeia todos os livros ou filmes do gênero. Para finalizar meu texto, que foi apenas uma desculpa para eu não fazer uma mera lista esfarrapada sobre os dez melhores filmes/livros de new western, podemos viajar para ainda mais longe, mais especificamente para a Irlanda, para um filme, que embora não utilize tropos do faroeste, eu considero um baita new western. Os Banshees de Inisherin, de Martin McDonagh (diretor de Três Anúncios para um Crime) não envolve uma jornada, quase não tem violência e conta a estranha história de dois amigos de longa data, que têm a amizade subitamente interrompida por decisão repentina de um deles. A grande essência da obra se baseia na monotonia e na passagem do tempo. Aqueles ali isolados são alheios aos grandes acontecimentos do mundo, embora de alguma forma anseiem para escapar daquela rotina — uma cena memorável é o diálogo entre dois personagens no litoral, ansiosos em sair dali, assistindo o país vizinho, do outro lado do canal, imerso numa guerra — e essas pequenas loucuras e tragédias é a maneira que encontram para lidar com o tédio. O new western bebe das fontes dessas bolhas rurais incrustadas na superfície da civilização. Embriagar-se com o sonho do progresso, empreender grandes jornadas rumo ao "futuro", para só então deparar-se com a falta de sentido ou a estagnação, é o verdadeiro Destino Manifesto do Homo sapiens!




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