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O Banquete Antropofágico de Vodalus

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 19 de abr.
  • 5 min de leitura
Canibais de Theodore Bry, 1593
Canibais de Theodore Bry, 1593

Sigo nessa onda de destrinchar e tentar compreender melhor o universo de O Livro do Novo Sol e extrapolar o que está escrito para fora das páginas. Gosto de ver como a fantasia se apropria do mundo real em suas criações, às vezes escapando de si mesma para retornar a ele. Primeiro foram Os Espelhos do Padre Inire que me levaram à esse tipo de reflexão, e agora me deparei com o "alzabo analéptico", mais uma daquelas coisas sobre as quais tão pouco é dito mas deixam o leitor perdido em reflexões.


Em um determinado momento da trama, Severian é convidado a participar de um banquete. Apesar das condições atípicas que envolviam tal solenidade — afinal o convite foi feito pelo lendário criminoso, Vodalus — tudo parecia correr bem. E aí que Thea lhe faz um alerta perturbador: ela menciona uma criatura trazida das estrelas, o alzabo, que consome cadáveres e absorve a consciência daquele corpo:


- "Esse animal foi trazido das estrelas há muito tempo, assim como muitas outras coisas para benefício de Urth. É uma fera que não tem mais inteligência que um cachorro e talvez até menos. Mas é um devorador de carniça e um destruidor de sepulturas, e quando se alimenta de carne humana, fica conhecendo, pelo menos por um tempo, a fala e os modos dos seres humanos." — Pág. 113.

A questão é que existe uma bebida, feita de uma glândula da criatura, que permite a quem a toma obter temporariamente a mesma capacidade do bicho! E dessa forma somos apresentados ao banquete antropofágico praticado por Vodalus e seus asseclas!!!


Esse momento singular e marcante da obra, poderia ser só um artifício fantástico para enriquecer a história de Urth, mas na verdade ele tem um correspondente antropológico muito bem documentado, e mais uma vez, a ficção não é tão fictícia assim. Podemos viajar para vários lugares do planeta para citar práticas canibais, mas os acontecimentos de A Garra do Conciliador evocam um ritual específico outrora praticado na América do Sul.


Precisamos voltar muitos séculos para o litoral do Brasil. Naqueles tempos, anteriores a chegada dos europeus, diversas tribos nativas viviam em pé de guerra: o interior das florestas eram campos de batalha; incursões no território inimigo eram realizadas para capturar escravos; hostilizar o inimigo e se vingar dos parentes mortos era uma necessidade ontológica. Tal animosidade criou toda uma cosmovisão baseada nessa existência belicosa. Dentre essas crenças, a ideia de morrer e ser consumido pelos vermes era uma vergonha, para um guerreiro derrotado, era preferível, ser consumido pelos seus inimigos! O canibalismo não era só uma refeição, era um ritual religioso que compreendia a honraria final para um guerreiro derrotado e a consumação completa da vingança pelos vencedores.


Várias tribos dispunham de práticas semelhantes no litoral brasileiro, mas os registros mais precisos que temos são relativos aos Tupinambás. O processo foi relatado pormenorizadamente por uma das poucas testemunhas oculares do ritual, Hans Staden, que escreveu o bestseller Duas Viagens ao Brasil baseado em suas experiências — o próprio Staden, foi feito prisioneiro pelos Tupinambás, e só sobreviveu porque não foi considerado corajoso o bastante para ser devorado.


Esse banquete antropofágico era repleto de rituais minuciosos e podia durar dias. O ato final envolvia o desfile da vítima perante toda a aldeia, onde seria hostilizado e teria a cabeça arrebentada pela Ibirapema — um tipo de porrete de madeira ritual. Então, o corpo seria esquartejado, escaldado e grelhado, e cada parte consumida de acordo com a hierarquia da taba. Utilizando as palavras do jornalista brasileiro Eduardo Bueno: "o corpo devorado era uma hóstia, um ritual eucarístico".


O canibalismo praticado por Vodalus não parece ser do tipo belicoso, é mais um tipo de necrofagia uma vez que envolve o saque de sepulturas. As semelhanças com o ritual Tupinambá se dão principalmente por causa da atmosfera eucarística e do papel que a consciência desempenha nisso tudo: mais do que trazer vantagens práticas para a trama — como obter segredos dos mortos por exemplo — os sectários de Vodalus praticam o canibalismo para poderem penetrar naquela consciência que partiu e compartilhar daquela existência. O ritual de Vodalus é antes de mais nada um novo tipo de droga.


O consumo da bebida feita do alzabo antes do ritual, colocava os participantes em transe e de maneira semelhante, os Tupinambás faziam uso de "fumos e vapores entorpecentes". Esse estado de delírio era essencial para absorver a consciência (espírito, alma, etc.) consumida. Isso não foge muito do porque a humanidade consome e sempre consumiu substâncias entorpecentes: as drogas são desde os primórdios uma substância capaz de mudar os padrões da consciência.


A ideia de que a alma seja um bloco sólido e indivisível é uma noção basicamente cristã. Diversas filosofias espalhadas pelo mundo discordam dessa concepção essencialista. Ainda estamos longe de compreender o que é a consciência, mas a noção contemporânea, exercitada desde o Cogito, ergo sum de Descartes, é a de que ela seja não uma estrutura indivisível, mas sim uma teia de memórias entrelaçadas. É impossível contabilizar as potenciais subdivisões da consciência: id, ego, superego, a infância, a adolescência, os traumas e toda uma variedade gigantesca de eus diferentes existem dentro do cérebro e a noção de unidade só existe por que eles se lembram uns dos outros — patologias que afetam a memória, sugerem um outro cenário.


Se o espírito é uma teia de memórias entrelaçadas, o que as substâncias entorpecentes fazem é retorcer essa teia, ampliá-la e rearranjá-la em outros padrões. Já que a consciência é toda a leitura de mundo que temos, qualquer variação nessa estrutura também desvela mundos diferentes. A antropologia já discutiu — sem fortes indícios — que talvez a nossa própria consciência e a linguagem, tenham surgido do uso dessas substâncias. Todavia, é evidente que todas as religiões do mundo guardem um lugar para tais substâncias em suas mitologias: o soma para os hindus, o vinho para os cristãos, a Ayahuasca para povos amazônicos, o mescal e cogumelos para povos norte americanos, etc. Isso para não mencionar o uso em escala industrial, impulsionado pelo seu uso recreativo na vida cotidiana.


Por isso o ritual presente em A Garra do Conciliador é um tipo de ritual eucarístico, uma experiência religiosa que envolve absorver outra consciência com o auxílio de substâncias psicotrópicas. O ritual canibal de Vodalus, no entanto, envolve um novo tipo de droga: ele não só reconfigura a consciência sob um novo padrão, mas literalmente conecta a consciência do participante à uma outra consciência completa, entrelaçando as duas. Essa deve ser a viagem de ácido mais poderosa que existe e tal porre ainda contorna uma barreira epistemológica intransponível.


Um dos grandes dramas filosóficos é o solipsismo: a ideia de que só conhecemos de fato a nossa própria consciência e jamais poderemos acessar a consciência do outro. Nós até sabemos que elas existem mas a única compreensão que temos delas vem de nossas interpretações subjetivas. Dessa forma, o ritual praticado por Vodalus é a única estratégia que eu já encontrei na ficção que supera tal barreira, já que se trata de um compartilhamento literal de consciências e não um mero acesso às memórias.  No caso de Severian, a consciência de Thecla passa a existir dentro dele após o ritual. Desconsiderando as dificuldades narrativas, os dois indivíduos, de fato, coexistem.


Conscientemente ou não, é com esse tipo de charme e influências borginianas, que Gene Wolfe vai construindo seu mundo. Não se trata de uma mera magia ou aparato que possibilitam ler a mente do adversário, mas de uma construção narrativa que percorre a história, a antropologia e veredas filosóficas. É esse tipo de coisa que me mantém afeito à fantasia, é ver como diferentes "realidades" podem ser forjadas a partir do nosso conhecimento.








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