A Seita do Super-Homem e a religião na Machosfera
- Italo Aleixo

- 16 de mar.
- 7 min de leitura

Se fosse feita uma votação do filósofo mais famoso, Nietzsche com certeza figuraria entre os primeiros. Perceba que eu não falei o mais estudado e sim o mais popular. Seu estilo de escrever em aforismos o torna campeão de citações genéricas em posts do Twitter, Instagram e em livretos de autoajuda. Mais do que isso, sua popularidade se deve muito à um tipo de cinismo diante da realidade, por vezes útil em um mundo cada vez mais hostil.
Tal filosofia encontrou terreno fértil entre os coachs, que vendem um discurso meritocrático e individualista e se espalhou para camadas ainda mais obscuras, se popularizando entre outsiders, jovens radicais de espectro da extrema direita e principalmente entre os red pill. É indiscutível a influência de Nietzsche na filosofia contemporânea, suas ideias reverberam em quase todos os campos do pensamento, mas a maneira como ele é replicado e "consumido" de forma tão leviana, tem causado um "torcer de nariz" até entre os filósofos. Mas onde essa radicalização moderna encontra Nietzsche?
A filosofia é a atividade humana verificar afirmações, e chamamos de crítica esse esforço de investigar se as narrativas se sustentam. Durante os processos da revolução científica, os fundamentos do conhecimento e da moral, começaram a se deslocar da religião para a ciência ou outros sistemas de pensamento seculares. Séculos depois, o "Deus está morto" de Nietzsche seria uma crítica fundamental desse processo de transição e um grande problema para o pensamento: se Deus não existe, de onde vêm os fundamentos da moral? — já que, até então, a sociedade sempre havia sido orientada por valores religiosos. É tal crítica ao pensamento ocidental, a grande contribuição de Nietzsche — não a proposta de uma nova narrativa, embora tenha ensaiado fazê-lo. Sua filosofia expõe uma chaga do pensamento, um problema insolúvel!
"Não existem fatos, apenas interpretações" - Friedrich Nietzsche
No niilismo de Nietzsche os sentidos tradicionais perdem sua validade, deixando o mundo aparentemente sem significado ou fundamento e isso influenciou as gerações posteriores de filósofos. O pessimista John N. Gray, por exemplo, defende que não existe "progresso", considerando ilusória e irreal a ideia iluminista. Segundo ele, essa ideia de "evolução" no pensamento, orientada pela razão e desenvolvimento científico, é só mais um mito. A ideia por de trás disso é que se todas as narrativas são artificiais e a humanidade sempre recorreu aos mitos de salvação, quando esses saem de cena, eles só podem ser substituídos por novos mitos, num looping sem fim.
Nietzsche percebeu isso, mas ironicamente cometeu o mesmo erro e espelhando o cristianismo que tanto criticava, criou seu próprio mito da salvação: o Übermensch — ou o super-homem. Nietzsche escancara o abismo que jaz sob o pensamento, mas ao mesmo tempo diz que podemos nos salvar dele. O Übermensch seria um estado "evoluído" do homem, alguém que entendeu que todas as narrativas são artificiais e passa a viver sob o julgo de nenhuma, libertando-se, criando seus próprios valores, e dessa forma, atingindo o status de super homem.
Esse é o grande problema, seja lá o que signifique ser humano, é viver numa criação artificial do mundo. A própria realidade que conhecemos, é criada por interpretações subjetivas do mundo e pela linguagem — é a linguagem que permite a existência de símbolos, objetos abstratos e sustenta a realidade intersubjetiva — que cria artifícios como a civilização e a consciência. Portanto, a natureza humana está sempre sob o julgo de alguma narrativa — e cabe a filosofia seguir verificando-as. A ideia de que podemos nos libertar de todas narrativas é utópica, na prática isso significaria viver numa condição anti-humana, cair no abismo e retornar à "condição animal". O Übermensch é o mito de salvação nietzschiano.
E aí que esse niilismo "moderno" se perde. Eu gosto muito da ideia de artificialidade da condição humana, pois ela complementa o destronamento do homem, catalisado por Copérnico, Galileu, Darwin e outros — as três feridas narcísicas, de Freud — nos tira do centro do universo para nos colocar no nosso lugar. Essa busca por salvação, comum ao cristianismo, progressismo e Übermensch, é simplesmente uma tentativa desesperada de retornar ao centro das coisas. É essa visão superficial do niilismo que é propagada nas redes sociais, sem profundidade filosófica, apenas antropocêntrica e egoísta.
A superficialidade reside na prática contínua de repostar frases de efeito — e os aforismos nietzschianos são perfeitos para isso — porque soam bonitas ou impactantes, e de alguma forma, tomar isso como "filosofia de vida". Num paralelo com o mundo real, seria o equivalente de turistas tirando selfie à beira do penhasco, sem a noção do perigo que seria cair dentro dele. Nesse regime, o Übermensch se tornou algo bem diferente do que Nietzsche esperava, e hoje se reflete em pessoas presas à narrativas, consumindo conteúdo plastificado de "homens de valor" ou meritocráticos.
"Lembra-te que tudo o que te ofereço é a verdade. Nada mais" - Morpheus para Neo; Matrix, 1999
A famosa pílula vermelha que Neo escolheu para escapar da Matrix, foi distorcida nas narrativas modernas e hoje nomeia um grupo violento e emergente nas redes sociais: os red pill. O movimento é orientado por três frentes: um desprezo escancarado às mulheres; a radicalização das redes sociais; e esse niilismo que legitima acreditar no que quiser. Essa subcultura virtual é composta por homens, em sua maioria outsiders, que cultuam às supostas características masculinas e ideais de virilidade, além de arquétipos abstratos.
Não é incomum ver esse tipo usuário replicando os tão famosos aforismos nietzschianos: "O que não me mata, fortalece-me", "É preciso ser forte, caso contrário, jamais se tornará forte", "Torna-te aquilo que és", "Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar", etc. Esse niilismo simplista, forjado muito mais na estética das frases isoladas do que pela própria crítica do filósofo, vende um individualismo desprendido, popular entre os outsiders que não conseguem se inserir na sociedade. Essa pseudo filosofia, foi embalada, enfeitada e comercializada por livros de auto ajuda e coachs, e hoje ecoa em grupos extremos presos às suas próprias doutrinas de ódio.
Num mundo onde as relações humanas estão cada vez mais difíceis e artificiais, essas pessoas recorrem à justificativa da crise narrativa, para criar narrativas que justifiquem seus anseios, cada vez mais distorcidos e extremados pela internet. A insatisfação com um mundo cada vez mais caótico e niilista — insatisfação que todos estamos a mercê — faz com que esses novos "super homens" se apeguem à suas narrativas de libertação e ódio, idolatrando uma figura platônica do homem ideal. Na incapacidade de se inserir na sociedade, os red pill se apegam ao mito, onde o sexo masculino é a fonte de valor da sociedade e o sucesso depende única e exclusivamente do indivíduo, e acusam as mulheres de serem as culpadas dos seus fracassos. Tal narrativa é "embasada" por ideais egoístas, onde o êxito não depende de ninguém senão do esforço individual e as crenças não devem seguir nenhum código moral vigente.
A repercussão disso se torna cada vez mais visível: a empatia é cada vez menos valorizada, as notícias sobre crimes contra as mulheres e feminicídio pululam nos jornais, discursos de ódio, antes restritos à fóruns obscuros, são vendidos a céu aberto em grandes canais do Youtube, enquanto réus desfilam com slogans como "regret nothing". Mas essas filosofias individualistas travestidas de mito da libertação, não são opostas à moral do rebanho, na ânsia de criar uma moral particular e trilhar seu próprio caminho, esses outsiders acabam aderindo a uma seita que enaltece a meritocracia e idolatram a figura idealizada do homem, uma epifania que nunca irão alcançar. Por isso essa replicação de frases de efeito sem nenhum senso crítico, são tão danosas à sociedade.
Esse é o grande problema de reduzir a filosofia a frases de efeito que só servem para amaciar o ego. Coachs e livros e auto ajuda, vendem um nocebo ontológico, a salvação ilusória de um problema insolúvel. A tragédia humana passa por um conflito de narrativas que provavelmente nunca irá se resolver, mas entre extremos e candura a civilização sempre seguiu em frente. A verdadeira contribuição de Nietzsche não é o seu Übermensch ou a promessa de libertação, mas sim o diagnóstico de um problema profundo da modernidade. Se abandonar todas as narrativas é se lançar ao abismo, é importante percebê-lo com antecedência, já que uma vez vencida a borda, a queda é inevitável. O super homem que escaparia voando só existe na ficção.
Em A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Alan Poe, as pessoas para fugirem de uma praga que assola a região, se isolam dentro de um castelo. Durante um baile de máscaras, um estranho participante fantasiado como uma vítima da epidemia é desafiado a se revelar e quando o faz, descobre-se que dentro da fantasia não há ninguém senão a própria doença. No baile de máscaras, o Übermensch é aquele que abraçou a Morte Rubra. Como no conto de Poe, a grande tragédia humana talvez resida em habitar o limiar entre a vida artificial e mesquinha do baile de máscaras que ignora os problemas além dos muros e a própria peste que se revela quando as máscaras caem. É viver no limiar do "horizonte de eventos" do abismo nietzschiano. Nossas ideologias devem ser sempre revisitadas e analisadas — afinal é isso que separa os paradigmas dos dogmas — e não baseadas em frases de efeito.
Nietzsche percebeu esse abismo e produziu toda sua ideologia enquanto o contemplava, se isolou e provavelmente caiu no abismo — o filósofo teve um colapso e viveu quase uma década sob surto psicótico até morrer.. que a civilização sempre fez é evitá-lo, agarrando-se as narrativas e eventualmente se escondendo sob máscaras. Se é impossível se libertar do convívio social, é preciso seguir por sendas onde o máximo possível de narrativas andem juntas, sempre "buscando a verdade" e evitando os extremos. Quanto ao abismo, cuidado!




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