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O Último Voo do Flamingo

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 10 de mai.
  • 2 min de leitura

No magistral Omeros de Derek Walcott, é abordada a ausência de uma identidade nacional, a falta de raízes que deixa o povo a deriva. Algo similar ocorre na obra de Mia Couto, mas foi a identidade nacional ancestral foi roubada, as raízes ainda estão lá mas a árvore foi cortada.


Em Tizangara, um vilarejo fictício no coração da África soldados das Nações Unidas começam a explodir misteriosamente. A trama conta a história de um emissário italiano enviado para investigar o caso e que acaba mergulhando na política e vida cotidiana local. O realismo mágico foi concebido como uma resposta ao fantástico europeu para mostrar a estranheza com que os Europeus viam a América Latina e é exatamente essa estranheza para com o diferente que vai nortear a jornada do enviado em Moçambique.


Gosto de ver a obra de Couto como um realismo mágico que dialoga com os de Gabriel Garcia Márquez e Juan Rulfo, mas com um estilo próprio da África (animista). Personagens, crenças e meandros da história se mesclam num insólito onde o mundo dos sonhos, dos mortos e a natureza andam de mãos dadas e tanto os animais, as plantas quanto os espíritos são pilares fundamentais da trama.


Um aspecto poderoso da obra de Couto é a violência (aqui os ecos de Pedro Páramo se fazem presentes), é a história de Moçambique que passou pela colonização, a luta pela independência e uma guerra civil sanguinolenta, é a história da África. Personagens que explodem espontaneamente são situações tão misteriosas quanto a localização das milhares de minas terrestres espalhadas pelo território até hoje.


Os personagens são um povo que teve sua história roubada, que se apegam a um passado que lhes foi tomado a força. A desilusão com o mundo, desapego com a realidade e o amortecimento psicológico perante à violência, criam um cenário isolado no meio das savanas, uma cidadezinha onde o tempo esqueceu de passar (ou se cansou) e os "caminhos para longe dali" surgem como uma esperança insubstancial.

Uma obra prima, de um dos maiores escritores da história da África, uma obra pesada e reflexiva sobre a violência, ganância e destruição da natureza!

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