A Religião dos Incas
- Italo Aleixo

- 19 de set. de 2025
- 4 min de leitura

A queda do Império Inca é um dos episódios mais marcantes da história da América. Tida como uma das civilizações mais "evoluídas" do continente, e muitas vezes comparada à Roma ou ao Egito, a incessante repetição dessa história, porém, não faz jus à real natureza desse povo.
A obra da antropóloga Carmen Bernand, se propõe a tecer um retrato dos Incas, sob a óptica de sua política e religião. Na ausência de documentos indígenas originais — afinal os Incas não desenvolveram uma língua escrita — a obra se baseia em relatos de cronistas do século XVI, que vivenciaram o estabelecimento do governo Espanhol.
Um grande equívoco que se comete ao comparar civilizações, é tentar comparar suas narrativas com sistemas ideológicos já conhecidos. Sempre foi dito que os Incas eram politeístas e que foi provavelmente pela influência dos Espanhóis, que passaram a reconhecer um deus acima de todos. Porém é ingênuo considerá-los uma coisa ou outra. A visão religiosa ocidental tradicional preconiza a criação do mundo pelos deuses — um ou vários. Os Incas, por sua vez, não reconheciam esse tipo de criação — a partir do nada — mas creram que tudo já existia e a natureza seria apenas o resultado da luta entre diferenças forças.
"Criar, em castelhano do século XVI, corresponde a nutrir (...) Por outro lado crear vem do latin creare (tirar algo do nada). No mundo antigo dos Andes tudo já existia. Faltava apenas a animação desse potencial." — A Religião dos Incas, Carmen Bernand
Seus "deuses", os Huacas, não eram entidades criadoras, mas sim forças da natureza. Arar a terra, por exemplo, era simplesmente estimular o potencial de brotamento das plantas, em detrimento de outros potenciais menos úteis. Isso, por si só, sugere uma metafísica quase termodinâmica, onde o papel dos rituais não é agradar aos deuses, mas sim negociar com essas forças. É um sagrado muito influenciado pela estética do mundo natural. Os Huacas são ao mesmo tempo personificações e locais dotados de "força", que se destacam na paisagem: picos, vales, geleiras, cavernas, etc... Desses locais emergiram os ancestrais, que ditam as regras de cada comunidade e estão por trás de toda mitologia Inca.
O livro mostra como a vastidão do império Inca se deu antes de mais nada, à ampla distribuição de diversas outras culturas pelos Andes e pela Amazônia, mas infelizmente não se aprofunda nisso. Antes de um império milenar, os Incas foram uma etnia relativamente recente, que desenvolveu uma forte narrativa baseada no culto ao Sol para assimilar outras culturas muito mais antigas. O império absorveu vários outros povos, sob a égide desse culto maior — do qual os adeptos eram os Incas de fato — que conferia sua hereditariedade sagrada, determinando linhagens e definindo toda a estrutura política do império.
A Religião dos Incas não é um livro ruim, mas também está longe de ser uma obra super abrangente sobre o império, além de não trazer uma boa organização. Faz falta um fio narrativo bem definido para explicar a epopeia dos filhos do Sol. Num determinado capítulo vemos como a religião explica o mundo; noutro vemos uma geografia do império — bem distribuído pelos Andes e até com contatos onde futuramente seria o Brasil; vemos como era a relação dos Incas com os rituais e os pecados e etc. Mas sempre sob a óptica de diferentes cronistas e com muitas idas e voltas pela linha do tempo.
O ponto mais interessante do livro, é o destaque que a autora dá para a tecelagem dentro da filosofia Inca. Para um povo que não desenvolveu a escrita, a tecelagem foi muito importante como ferramenta de registro histórico tanto quanto pra explicar a realidade. Era nas tramas dos tecidos que os Incas embutiam significados ocultos e as vezes abstrações metafísicas, noção consoante com a crença de que a civilização não era uma criação divina, mas sim uma manifestação da natureza que precisava ser "tecida". Esse traço cultural tem dois extremos bem peculiares: um é o khipu, um emaranhado de cordões e nós de várias cores, usado para registros contábeis. Objeto até hoje muito misterioso e difícil de decifrar, onde, ao que parece, também era possível registrar outras categorias de objetos abstratos — feitos e lendas? Outro é a própria arquitetura Inca, onde ainda hoje é possível observar, nas ruínas remanescentes, junções entre pedras completamente excêntricas.
Esses detalhes interessantes aparecem em algumas páginas mas logo se perdem para dar lugar para outros assuntos, que a leitura se desenvolve entre o interesse e a frustação: o Taki Unquy, dança da loucura que assomava os Incas, possuídos pelos Huacas — e por substâncias alucinógenas — descontentes com o cristianismo, seria um mero movimento de resistência política ou algum tipo de delírio dionisíaco? A resposta fica no ar.
Mesmo com a ausência de uma narrativa cronológica bem determinada — tudo bem, a proposta não era ser um livro de história — o principal ponto fraco do livro é oscilar entre um retrato etnográfico e um filosófico dos incas, sem chegar a um resultado definitivo.




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