Spoon River Anthology
- Italo Aleixo

- 6 de set. de 2025
- 2 min de leitura

É angustiante aceitar a ideia de que somos um aglomerado de memórias acumuladas ao longo da vida e destinadas à perecer. Entre a esperança e a incerteza de uma vida após a morte, surge o impulso de semear a terra com nossos mortos e guardá-los próximos de nós. Um cemitério é uma despensa de memórias.
Em Spoon River Anthology temos a coleção de 244 pequenos poemas, cada um um epitáfio daqueles que jazem enterrados. Cada poema, de pouco mais de uma página, é uma mensagem do morto para aqueles que ainda respiram, um testemunho sobre a vida que levou. Os poemas são apanhados de frustações, lamentos e memórias daquela vida efêmera que viveram.
Entre os mortos da fictícia Spoon River, estão ricos e pobres, membros da elite e marginalizados, afortunados e desgraçados, agora todos iguais perante o sono eterno.
Diferente dos mortos de Pedro Páramo — Juan Rulfo — onde o pesar e a tristeza ainda enxarcam o solo, o maior sentimento que permeia Spoon River Anthology é o de uma melancolia perene. Sonhos não realizados, a inconformidade de ter como vizinho de túmulo um potencial assassino, arrependimentos e decisões equivocadas, são meros ruídos no silêncio reinante do cemitério.
Para muito além da poesia, Spoon River Anthology é um documento histórico. O início do século XX foi um período de grandes crises sociais e econômicas nos EUA, quando a deturpada ideia do American Dream começou a ser forjada. Em sua sinopse, o livro Wisconsin Death Trip, de Michael Lesy, que traz diversos relatos reais de colapso psicológico e crimes hediondos ocorridos no interior dos EUA no fim do século XIX, se coloca como "uma resposta sombria" à Spoon River Anthology". Os poemas de Edgar Lee Masters porém, estão longe de ser uma visão iluminada dos Estados Unidos rurais.
Os personagens, influenciados por lendas e pessoas que o autor conheceu em vida, compõe um retrato daquela malha social. Os poemas tecem uma trama com desejos, traumas, medos e anseios, posicionando cada personagem como peças num grande tabuleiro. Dessa somatória é possível vislumbrar o tecido social dos EUA no início do século XX, cortina que nunca mudou na prática, o de uma sociedade conservadora modelar de fachada, que tenta silenciar toda uma miríade de comportamentos, convoluções sociais e lutas de classe.
"The weak of will, the strong of arm, the clown, the boozer, the fighter ?
All, all, are sleeping on the hill.
One passed in a fever,
One was burned in a mine,
One was killed in a brawl,
One died in a jail,
One fell from a bridge toiling for children and wife —
All, all are sleeping, sleeping, sleeping on the hill."




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