Beren e Lúthien
- Italo Aleixo

- 7 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Em vida Tolkien publicou quatro livros que lhe concederam fama internacional: O Hobbit e a trilogia O Senhor dos Anéis. Esses livros fazem parte de uma vasta e incompleta obra que compõe toda a mitologia da Terra-Média. A continuação desse universo chegou ao leitor graças aos anos de trabalho do filho, Christopher Tolkien, que editou e publicou vários dos textos do pai. Foi por meio de tal trabalho, que Tolkien teve postumamente publicado aquele que talvez seja sua obra prima: O Silmarillion.
O livro narra todos os acontecimentos da criação do mundo e das Silmarils, das inúmeras guerras causadas pela cobiça às jóias e pela ameaça de Morgoth, finalizando nos eventos de O Senhor dos Anéis. A obra já se encontrava em estágio bastante avançado na época, mas não chegou a publicada. Outro livro quase finalizado pelo autor, que poderia entrar numa lista de "obras completas da Terra Média", é Os Filhos de Húrin. Além desses livros, todo o resto são trabalhos incompletos — alguns mais ou menos desenvolvidos — que o filho fez questão de trazer a tona para mostrar como se deu o desenvolvimento da mitologia do pai.
Um acontecimento importante dentro de O Silmarillion é o romance entre Beren e Lúthien. O romance entre homem e elfa — a primeira união entre as raças — culmina na expropriação de umas das Silmarils em posse de Morgoth, desencadeando novas guerras e dando início aos eventos que finalizariam a primeira era da Terra-Média. Beren e Lúthien é um apanhado de textos originais de Tolkien mostrando a evolução da lenda.
Como já dito, o livro não é uma versão estendida e completa da lenda, mas sim a evolução do conto original, reescrito várias vezes por Tolkien. Num primeiro momento vemos a versão original do conto, onde os elementos da Terra-Média ainda se mesclava à estética da cultura fantástica europeia. Compartilham o mundo mágico, elfos, fadas, duendes e animais falantes: em especial os gatos falantes que são agentes de Morgoth. O conto embora já carregado de um tom trágico, tem todas as nuances de um conto de fadas típico: com embustes, aventuras, finais felizes e um lampejo de esperança diante das trevas.
É no capítulo seguinte, quando a lenda é contextualizada no universo de O Silmarillion, que podemos sentir aquela sensação de tristeza e tragédia iminentes, marca registrada da obra de Tolkien. Nessas duas páginas também já se veem as mudanças mais substanciais: Beren, antes elfo, passa e ser definitivamente humano, somem os gatos falantes, sendo seu líder, Tevildo, substituído por Sauron. Depois disso, se seguem dois longos poemas épicos com a continuação da lenda.
É intercalando poemas, com trechos em prosa — muitos dos quais retirados de O Silmarillion — que Christopher Tolkien se esforça para mostrar como a lenda evoluiu ao longo de sua construção. Na falta de um desfecho definitivo, Christopher discute seus potenciais finais e ainda acrescenta a história de Eärendil, descendente do casal e personagem cujo destino culmina a Primeira Era da Terra-Média. Dessa forma, o leitor de Beren e Lúthien que não tenha lido O Silmarillion, pelo menos terá uma história "completa" diante de si.
Para os fãs de Tolkien é sempre bom poder revisitar a Terra-Média, ainda mais o fazendo por novas sendas que margeiam o enredo principal. Fica no ar qual o desfecho definitivo para o afamado casal, cujos destino dos corpos não são relatados nos escritos de Tolkien. A lenda tinha um peso especial para o autor, que expressou o desejo de escrever Lúthien no túmulo da falecida esposa.
Em um dos desfechos a lenda remete à tragédia Grega — lugar comum na mitologia da da Terra-Média — mais especificamente à história de Orfeu, quando Beren morre e Lúthien usa suas danças e canção para clamar à Mandos, o Guardião das Casas dos Mortos, a ressurreição do amado. No desfecho mais aceito, Lúthien abre mão de sua imortalidade élfica, atrelando seu destino ao dos mortais. Uma história que Tolkien revisitou em diferentes momentos da vida, muito provável um tema que reverberava sua visão de mundo, sua relação com o amor e com a morte!




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