Streaming Não Forma Cinéfilo
- Italo Aleixo

- 26 de set. de 2025
- 8 min de leitura

"Porque cinéfilo ama odiar o streaming?" Esse já é um tópico bastante discutido na internet e sempre que me deparo com esses estereótipos, penso que a melhor maneira de pensar neles é fazendo uma pergunta e vendo o quão facilmente a resposta vem. São sobre essas perguntas cujas respostas não saltam aos olhos que gosto de ficar refletindo. Além do mais é uma boa desculpa para eu falar sobre paixões, como os livros, cinema e biologia.
O debate entre as vantagens e desvantagens dos serviços de streaming já é velho e passa pelo choque entre as gerações: de saudosistas, que se lembram com paixão de como era "bom" ficar dias na lista de espera de alguma locadora só para alugar um maldito VHS; e daqueles que nem conseguem imaginar a situação de precisar sair de casa para assistir um filme. Convenhamos, a praticidade de poder escolher a partir do conforto da sua casa, "qualquer" filme para assistir, isso com esforço quase nenhum, não tem comparação. Se a discussão se baseia nisso, não existem argumentos e meu texto acabaria aqui. O grande problema do streaming é a perda de variabilidade, já que nos serviços de streaming você está a mercê do Algoritmo! Mas o que isso significa?

De uma maneira geral e personificada, o Algoritmo são os sistemas automáticos das plataformas que "decidem" o que cada usuário consome. Antigamente quando íamos à uma locadora, a escolha dos filmes era feita ali, naquele momento. Claro que com exceção daquele blockbuster que todos seus amigos estavam comentando, ou daquele filme bacana que seu primo te indicou, a decisão final era só nossa. Não tínhamos a constante presença dessa "entidade virtual" sobre nossos ombros, que fica apontando para o que devemos assistir. O espectador mantinha uma certa liberdade com relação ao que ele estava consumindo, liberdade na criação daquela personalidade.
Um detalhe menos óbvio, é que devida a limitação física de espaço para manter um catálogo, diferentes locadoras possuíam acervos distintos. Algo semelhante ocorre com as livrarias, já que mesmo que elas compartilhem aqueles clássicos em comum, cada uma oferece uma gama muito diferente de títulos. Por causa dessa variedade, os clientes de uma determinada locadora, tinham acesso à diferentes títulos que os de outra, construindo diferentes personalidades.
A comparação com os livros foi proposital. Como a literatura não foi, ainda, tomada de assalto pelos serviços de streaming — e nem vou tomar espaço nesse texto discutindo porque os livros físicos diferem tanto dos ebooks — as bibliotecas ainda persistem. Elas também estão alinhadas à um outro conceito, mais recente, que é o de antibiblioteca. Que basicamente, concerne à importância de se manter uma coleção de livros, mesmo sabendo que nunca os lerá. É esse ato contínuo e perpétuo de conhecer novas obras e adicioná-las à sua coleção, que vai definir a sua personalidade enquanto espectador.
Embora a comparação não seja nítida, existe um outro campo onde a variedade é extremamente importante e vale apena ressaltar. Aqui me permitirei uma pequena introgressão, para falar de outro assunto que eu amo: a biologia.
As bibliotecas estão para o leitor como a diversidade genética está para os seres vivos.
Vira e mexe eu gosto de discorrer sobre o que é a vida, já fiz isso em outros textos. Pensar sobre a vida, é pensar em como pequenas moléculas "aprenderam" a se replicar e criar variabilidade. De acordo com Richard Dawkins, em seu O Gene Egoísta, a evolução opera sobre os genes, que para sobreviverem usam os indivíduos como meros veículos. Na prática, os seres vivos seriam moléculas que constroem máquinas de proteína (os organismos) para sua própria propagação. Sem entrar nesse nível de discussão, o que diferencia um ser vivo de outro no nível mais basal é o material genético.
Hoje a teoria mais aceita é que a vida se originou uma única vez, ou seja, toda a biodiversidade existente é oriunda de uma sequência de DNA original, que se multiplicou e se alterou zilhões de vezes. As unidades básicas que compõe o DNA são os nucleotídeos: adenina, guanina, citosina e timina — conhecidos pelas letrinhas A,G,C e T. É a repetição e as múltiplas combinações entre eles, que geram toda a informação genética. Essa molécula "constrói" o organismo quando as sequências de nucleotídeos se combinam com os aminoácidos permitindo a síntese de proteínas, e a diferença entre uma proteína e outra, ocorre graças a diferentes combinações dessas letrinhas. O que muitos ignoram é que não é toda a extensão do DNA que é utilizada durante esse processo, apenas uma pequena parte — bem, isso varia, em bactérias quase todo o DNA é codificante, mas na nossa espécie por exemplo, somente 2%. Essas porções do DNA que são transcritas e codificam proteínas funcionais, nós chamamos de gene.
Todo gene tem suas variações, que são chamados de alelos. Diferentes alelos surgem por meio de mutação — quando ocorre a troca aleatória de uma "letrinha" por outra — e da recombinação de genes, durante a reprodução sexuada. Dentro de uma determinada população, chamamos de variabilidade genética o conjunto desses diferentes alelos, e são eles que fazem com os indivíduos de uma mesma espécie sejam tão distintos entre si.
A variabilidade genética é importante pois é garante a resistência de uma população diante das agruras da natureza. Vejamos um exemplo hipotético: imagine certos tipos de alelos que produzam proteínas relacionadas com resistência térmica de um organismo. Suponhamos uma determinada população γ com uma baixa variabilidade genética. Nessa população, a pouca variedade de alelos sintetizam uma pequena variedade de proteínas, que permitem que os indivíduos suportem uma oscilação de calor, de digamos, 2º. Numa outra população, chamada λ, a maior variedade de alelos produzem proteínas que permitam os organismos suportarem uma oscilação de 10º. É importante ressaltar que a riqueza alélica é uma característica da população e não do indivíduo, então diferentes indivíduos suportam diferentes limites de calor. Qualquer mudança no ambiente que aumentasse a temperatura em 5º, eliminaria a população γ enquanto a população λ persistiria, por meio da sobrevivência daqueles indivíduos que suportassem esse aumento. É esse processo que explica porque algumas populações são mais suscetíveis à doenças do que outras.
A seleção natural é justamente essa sobrevivência diferenciada de indivíduos mais aptos que outros. Dentre o pool de alelos de uma população, só irão continuar existindo os alelos daqueles organismos que se reproduziram e como os indivíduos tem aptidões diferentes — justamente por causa da variabilidade — apenas alguns alelos serão selecionados. Por isso a variabilidade genética é tão importante, pois é ela que permite a resistência e a adaptação às condições ambientais.
Se a variabilidade é criada com mutação e reprodução sexuada, também é importante frisar como ela se perde. Imagine cada população como uma biblioteca de alelos — e vamos voltando aos poucos ao assunto anterior. Agora pense num pool de alelos — digamos, sei lá, uns 300 — presentes em 10 indivíduos, dentre os quais, sete irão se reproduzir passando 230 desses alelos para frente — lembre-se de que não são todos os alelos de um indivíduo que são dispersados. Dessa forma, 70 alelos seriam perdidos por um processo chamado de Deriva Genética, que é a flutuação aleatória nas frequências dos alelos de uma população.
Além da Deriva Genética existem outras maneiras de se perder diversidade genética: o Bottleneck, por exemplo, ocorre quando há uma queda drástica no tamanho de uma população — a morte de vários indivíduos causada por um desastre natural por exemplo — eliminando vários alelos de uma vez; o Efeito Fundador por sua vez, é a formação de uma nova população a partir de poucos indivíduos. Esse pequeno grupo terá uma baixa variabilidade genética intrínseca; a Endogamia reduz a variabilidade porque diminui a recombinação de alelos diferentes; a Seleção Natural intensa e Extinção de espécies — causada por perda de habitat — também levam a perda de diversidade.
A perda da "variabilidade" em meio ao excesso de informação.
Todo esse devaneio para comparar como a perda de variabilidade genética, pode ser comparada aos serviços de streaming. O que acontece num serviço de streaming, é que toda essa variabilidade é eliminada pelo Algoritmo. O espectador perde seu papel ativo na escolha do que irá consumir e passa a ser bombardeado por informações e consumi-las de maneira passiva. Nós não ganhamos nada com elocubrações apocalípticas do tipo "o algoritmo te quer alienado" ou "as megacorporações querem te te doutrinar", mas o que acontece é basicamente a perda de autonomia na definição da sua personalidade. Numa alusão à genética, é como se apenas alguns alelos passassem a ser transcritos, mesmo que a variabilidade ainda exista.
Mas o problema não se resume à isso. Longe de serem os megacatálogos que prometem ser, não é como se os streamings disponibilizassem ao cliente todos os títulos do mundo — aqui não vou nem entrar na questão da subdivisão e criação de trocentos serviços de streamings, que nos levou de volta à era da TV a cabo — e a lista das "poucas" obras disponíveis fica a mercê da audiência. Já que os Algoritmos priorizam conteúdos para maximizar engajamento e todo mundo assiste a mesma coisa, não é preciso ter opções, pois a variabilidade por si só, não gera lucro.
A substituição das locadoras por serviços de streaming, onde todos consomem o mesmo produto, é algo semelhante à Deriva Genética. Essa "simplificação cultural" acontece porque a variabilidade que antes existia é substituída por um pool menor de obras mais curtidas/comentadas e assim como no Efeito Fundador, aquela pequena % do que é assistido, passa a ser consumida por todos. Cada indivíduo é um somatório de suas experiências pessoais, mas essa variedade diminui quando todos passam à ter as mesmas experiências.
O resultado disso todo mundo já deve ter experimentado: passar "horas" sentados na frente do menu sem saber o que assistir, seja por causa do cansaço mental causado pela torrente de informação despejada, ou por causa daquele sentimento de já conhecer tudo o que está ali. Ou finalmente tomar uma "decisão" e assistir no semiautomático — as vezes acelerado em 1,5x — o Dorama mais comentado dessa semana, antes que ele se torne completamente obsoleto na semana que vem. Uma sensação ainda pior é aquela de que sempre que se tenta buscar uma obra específica, descobrir que ela nunca está no catálogo — um drama comum para os entusiastas do cinema.
Uma vez ouvi de um amigo que "streaming não forma cinéfilo" e boa parte desse texto foi construído em cima do problema que ele expos. Na ausência do desenvolvimento desse gosto pessoal próprio, todos assistem a mesma coisa e o senso crítico se resume a gostar ou não gostar de algo. Consumir coisas diferentes, sejam filmes ou livros, é essencial para a construção de um senso crítico apurado. Coloque na receita o desaparecimento da variabilidade — seja um sumiço de fato ou esteja ela apenas escondida pelo algoritmo — e você não tem mais verdadeiros entusiastas por cinema.
Tudo bem que esse post foi apenas uma desculpa para falar de biologia e reclamar de uma geração que está muito mais preocupada em consumir o máximo volume possível de informação — independente do que seja. Talvez seja até mesmo injusto falar que os Streamings diminuem a diversidade — sim eles diminuem — já que você pode ter acesso à toda diversidade de streamings para acessar toda diversidade de filmes. O calcanhar de Aquiles de todo esse argumento é que, um serviço médio de streaming deve ter mais títulos do que aquela locadora do seu bairro que você adorava ir — ou seus pais. Ou seus avós!!!
Mantenho a critica, os streamings diminuem a diversidade cultural porque todos terceirizam o gosto pessoal para o Algoritmo. Os algoritmos possuem uma "baixa diversidade alélica" e "cada vez menos alelos são transcritos" — ou mesmo muitos novos alelos são transcritos, mas não passam pelos filtros da seleção natural. As locadoras não vão voltar — o grande avanço da nuvem em relação as cópias físicas, é uma questão prática de armazenamento — e os streamings devem continuar por aí por um bom tempo. A única sugestão que fica é para que as pessoas façam um esforço para fugir do Algoritmo — isso não é mais possível hoje em dia, mas pelo menos aprendam a driblá-lo. Reflita sobre os filmes que assiste, crie uma lista pessoal por conta própria, faça como os leitores e aprenda a pesquisar e explorar mais seus hobbies. A cultura precisa ser consumida de forma ativa — com anotações e pesquisas. O mais importante: mantenha uma antibiblioteca — ou uma anticinemateca!
P.S. Esse post também vale em certa medida para a música!




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