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Discurso sobre o espírito positivo

  • Foto do escritor: Italo Aleixo
    Italo Aleixo
  • 1 de fev.
  • 3 min de leitura

Corrente filosófica do século XIX, concebida de maneira muito idealizada por Auguste Comte como uma "religião do homem moderno", acabou se tornando uma das ideologias mais influentes na modernidade. Exerceu forte impacto sobre o positivismo lógico do século XX, e também provocou reações críticas ( como o racionalismo crítico, de Karl Popper), contribuindo, assim, para a concepção moderna da ciência.


Para compreender o positivismo é preciso, antes de mais nada, entender seu significado. Ao contrário do que a palavra parece sugerir, positivo deriva do latim positum (colocado; posto), que deve ser entendido como "real", "certo" ou "objetivo". Influenciado diretamente pelo empirismo, Comte pressupõe que o conhecimento só é válido quando baseado em fatos observáveis. Ele dá continuidade à uma revolução intelectual iniciada no século XVII, onde a moral e o conhecimento humano deixam de ser baseados na religião e passam a se orientar pela razão. O espírito positivo seria então, uma forma de pensar restrita à apreciação sistemática daquilo que existe, em detrimento de se explorar as origens primeiras e/ou destinos finais dos fenômenos.


" Toda proposição não estritamente redutível à simples enunciação de um fato, seja ele particular ou geral, não pode oferecer sentido real e inteligível." - Auguste Comte

Para Comte, o espírito positivo é o estágio final do conhecimento humano, que passa pelos seguintes estágios: o teológico, caracterizado pela personificação da natureza, pela "vontade" própria e por um desejo autossuficiente de conhecimento. Tal estágio emergiria da consciência e evoluiria do politeísmo para o monoteísmo. Como os deuses não são entidades objetivas, sua autoridade é questionável, daí viria o segundo estágio. O espírito metafísico, é quando a personificação dá lugar à entidades abstratas, como a liberdade, direito, etc. Entidades tão pouco passíveis de serem verificadas e também incapazes de servirem de alicerce para o conhecimento.


A grande questão é que, uma vez que a razão e a moral eram baseadas em leis e mandamentos divinos, no que as novas leis irão se basear, já que "deus está morto"? Devido a ausência de lastro dos conceitos metafísicos abstratos, Comte acreditava que os espíritos teológicos e metafísicos estavam em conflito, anulando um ao outro e impedindo o progresso. Emerge então o terceiro estágio, o positivo, um modo de pensar científico, com afirmações verificáveis que norteariam a ordem e conduziriam ao progresso.


Embora métodos de verificação empíricos sejam indispensáveis, essa visão evolutiva do conhecimento é muito irreal. Falar em espíritos teológico ou metafísico é reduzir a religião à uma ciência primitiva e mal desenvolvida, ou rebaixar nomes como Kant ou Descartes (talvez os maiores nomes da epistemologia) à uma teologia disfarçada. Essa noção de que o conhecimento passaria por essas etapas, pega emprestada a visão etnocêntrica e evolucionista e colonial da antropologia de outrora — devemos destacar que o positivismo data do século XIX, bem antes da revolução na antropologia, promovida por nomes como Franz Boas, Bronislaw Malinowski e Marcel Mauss, no século XX, que rompe com esses paradigmas. As narrativas que orientam as sociedades humanas não derivam apenas da fisiologia ou do acúmulo de conhecimento, mas constituem construções sociais, históricas e culturais. Portanto a religião não é apenas uma tentativa primeva de fazer ciência, mas sim uma narrativa que envolve toda a miríade de padrões sociais de determinada sociedade, enquanto a metafísica é justamente o debate sobre quais são os limites do saber. Não existe um espirito teológico ou metafísico lineares historicamente falando, mas sim amálgamas de todo pensamento humano. Hoje é colocado em cheque até a própria ideia de modernidade ou progresso, mas isso não é assunto para essa resenha.


Embora Comte veja o positivismo de forma idealizada demais, envolto numa atmosfera de utopia, devemos deixar o debate filosófico de lado, já que as obras relevantes para essa discussão são outras. O maior problema do livro está na escrita. Para um texto que se propõe a ser uma apresentação do positivismo ao publico leigo, a escrita é confusa e complica o que deveria ser simples. Discurso Sobre o Espírito Positivo é um livro curto, mas falha justamente na objetividade que Comte tanto alardeia. As explicações ou não são claras, ou ficam presas à redundância, ou a um rodeio semântico, excessivamente hermético para facilitar o entendimento. É mais fácil entender o positivismo por meio de outros autores do que por esse livro específico.

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