O Polonês
- Italo Aleixo

- 21 de mar.
- 2 min de leitura

Escrito já no auge dos 80 e poucos anos de J. M. Coetzee, O Polonês não é uma obra tão vigorosa como seus outros clássicos — embora só posso me basear em Desonra, o único contato que tinha tido com o autor — mas uma reflexão branda sobre a proximidade da morte e do desejo na velhice.
O livro conta a história de Witold Walczykiewicz, um pianista famoso, velho, que se apaixona por Beatriz, uma mulher casada, iniciando sua meia idade. Depois de um breve relacionamento e da morte do pianista, Beatriz descobre que herdou de seu "admirador" um longo poema escrito em polonês. Ela se lança então na tarefa de traduzir esta última tentativa de contato de Witold.
Gosto da ideia de que a arte nada mais é do que uma tentativa da "alma" em se comunicar com uma entidade que ela nunca vai conhecer: outra alma. O Polonês provavelmente é uma tentativa de Coetzee de se ver nos olhos de outra pessoa e sobre a dificuldade que é se fazer ser compreendido. Mais do que uma reflexão sobre o desejo, o livro é um ensaio sobre como a barreira linguística define como vemos o outro. Beatriz que mantém poucas memórias de Witold, decide tentar decifrá-lo sem entender nada de polonês, dessa forma, o pianista que Beatriz tenta reconstruir fica então, a mercê das interpretações subjetivas de seus versos e das nuances da tradução de terceiros.
Em Coração Tão Branco, de Javier Marias, vemos como uma simples palavra ou gesto — expressos ou não — modificam os meandros da consciência, que se remolda a cada interpretação do outro. Em O Polonês, a ideia é outra, é em como tentamos montar a ideia dessa massa amorfa que é a consciência do outro, a partir do que ela é capaz de comunicar. Porém, por mais charmosa que soe a ideia, o livro é breve demais para reflexões mais profundas.
Os capítulos são compostos de pequenos trechos, percepções fugazes de Beatriz ao longo dos anos. A narradora é pouco expressiva e um tanto quanto sisuda demais, falta, sei lá... humanidade, desespero, destemperamento, encanto. Será que isso se dá pela dificuldade de Coetzee, um autor que escreve majoritariamente sobre um universo masculino cru e sem idealizações, em se colocar na mente da mulher? Talvez o livro seja curto apenas pelo aspecto ensaístico da obra e do planejamento de ser lançando como um espécie de conto, mas gosto de pensar que essa brevidade, se dá pelo distanciamento que Coetzee encontrou em usar o sexo oposto como narrador, na tentativa de desvendar — ele mesmo? — o pianista.




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